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1.1 BS 2026-02: Coerência a via privilegiada para a caridade

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A passagem do Evangelho de Lucas, capítulo 11,37-41, narra-nos como Jesus, a caminho de Jerusalém, aceita o convite para jantar com o fariseu. Temos um diálogo que representa um momento de confronto entre duas visões da religiosidade: a formal, centrada nas prescrições rituais; e a do coração, proposta por Jesus.


À pergunta feita a Jesus sobre o motivo pelo qual não segue os gestos rituais da tradição, ao fariseu se convida a passar além das ações exteriores, a verificar se a exterioridade corresponde realmente àquilo que leva no coração.

Jesus aceita o convite sem condições

Como o fariseu, também nós podemos convidar Jesus para a nossa mesa. A sua resposta é surpreendente: Jesus aceita, sempre, sem pôr condições. Não pretende que a nossa casa esteja em ordem, não exige garantias sobre a nossa coerência. “Ele foi e pôs-se à mesa” – com esta simplicidade desarmante, Jesus entra na vida do fariseu, sabendo já o que vai encontrar, conhecendo as contradições, as sombras, as duplicidades.

Esta é a primeira mensagem libertadora: Jesus não espera que sejamos capazes de tudo; vem para nos ajudar a ser capazes. Não devemos esconder quem somos de fato para ser dignos da sua presença. Antes, é mesmo a nossa incompetência a tornar-nos necessitados do encontro com Ele.

Uma presença que ilumina

Mas atenção: se Jesus aceita sem condições, a sua presença nunca é neutra ou inócua. Jesus entra e porta luz. O fariseu esperava talvez o hóspede complacente, alguém a exibir, a apresentar aos conhecidos: “Olhem, até Jesus vem à minha casa”. Ao invés, vê-se posto a nu sem ser humilhado com isso nem embaraçado. A presença de Jesus ilumina as contradições, faz emergir aquilo que preferiríamos manter escondido.

Não é uma agressão; é, antes, como quando acendemos a luz num quarto: a luz não cria a poeira que há, mas torna-a visível. Assim Jesus: não inventa os nossos defeitos, mas bondosa e gradualmente nos ajuda a vê-los por aquilo que são. Em poucas palavras, a sua presença é um convite a fazer claridade em nossa vida: a ver com honestidade onde somos autênticos e onde, ao invés, vivemos de máscaras; onde há coerência e onde há contradição entre aquilo que parecemos e aquilo que somos.

Além das aparências: o chamamento à coerência pessoal

“Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade”. Jesus não condena as práticas exteriores em si – as abluções, as orações públicas, a observância – mas projeta luz sobre aquela subtil e terrível cisão entre exterior e interior, sobre a duplicidade de quem, enquanto cura da imagem, descuida o coração.

É uma tentação que atravessa todos os tempos. Quanta energia despendemos para construir uma imagem aceitável! Nas redes sociais, na vida profissional, até nas relações mais íntimas: filtramos, selecionamos, mostramos só aquilo que nos valoriza. Jesus, ao contrário, chama a uma coerência em nível muito pessoal, antes mesmo que público. Não se trata daquilo que os outros veem, mas do que somos de verdade quando ninguém nos vê. É ali, no fundo d’alma, do coração, que se joga a nossa autenticidade.

Uma visão sem zonas de sombra

“Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior?”. Há aqui uma profunda intuição humana e espiritual: o ser humano é uno. Não estamos divididos em compartimentos estanques – a dimensão pública e a particular, o corpo e o espírito, a exterioridade e a interioridade. Não podemos ter zonas de sombra, áreas da vida subtraídas à luz, pensando que se não contamina o restante.

O convite de Jesus é uma visão sem zonas de sombra: uma vida em que não haja ângulos escusos onde se cultivam vícios, egoísmos, duplicidades...; uma transparência interior onde tudo seja posto à luz da consciência e da Graça. Tal não significa perfeição imediata, mas honestidade radical: reconhecer as nossas fragilidades, chamá-las pelo nome, não justificá-las, sequer escondê-las. É o primeiro passo para a cura.

A esmola como dom de si

“Dai, antes, esmola do que possuís, e para vós tudo ficará limpo”. Aqui está o cume da mensagem de Jesus. A verdadeira purificação não vem de rituais exteriores, mas daquilo que há dentro. A coerência tem a capacidade de ser portadora de bondade. A palavra “esmola” em grego tem as suas raízes na palavra “misericórdia”, compaixão. Não é só questão de dar dinheiro, mas de darmo-nos a nós mesmos: o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa presença, a nossa vulnerabilidade.

Quando vivemos esta unidade interior, quando não há cisão entre o que somos e o que parecemos, então dessa unidade emana a verdadeira esmola, a autêntica misericórdia: um dom autêntico, não calculado, não instrumental. Não damos para parecer generosos, mas porque a generosidade tornou-se quem somos.

Os jovens têm sede de adultos autênticos e coerentes

Esta mensagem tem uma ressonância particular hoje, especialmente para as novas gerações.

Os jovens vivem imersos numa cultura onde tudo tem um preço, tudo é calculado em termos de rendimento e utilidade; as identidades estão fragmentadas entre mil perfis, máscaras, papéis sociais; as relações são mediadas, filtradas, muitas vezes anónimas ou superficiais.

Neste contexto, os jovens têm uma sede desesperada de adultos autênticos: pessoas que vivem aquilo que dizem; que não têm dois rostos: um em público e outro em particular; que não mentem por conveniência.

É preciso nunca esquecer que os jovens não procuram adultos perfeitos – esses rejeitam-nos como falsos. Procuram adultos verdadeiros: capazes de reconhecer as suas próprias fragilidades, de ser coerentes nas pequenas coisas cotidianas, de manter a palavra dada, de ter uma vida interior que se vê. O melhor serviço que podemos prestar às novas gerações não é dar-lhes conselhos morais ou regras de comportamento, mas testemunhar uma vida autêntica.

O convite permanente

O fariseu convidou Jesus uma vez. Mas o texto revela-nos que Jesus está sempre disponível a ser convidado, hoje, como o foi há dois mil anos.

A pergunta para cada um de nós é: - Estamos dispostos a acolhê-LO sabendo que a sua presença nos colocará perante a verdade de nós mesmos? Estamos prontos a deixar que ilumine as zonas de sombra? E, ainda: - Depois de haver acolhido esta luz, estamos dispostos a viver na autenticidade renunciando às máscaras, dando aos outros não aquilo que nos engrandece, mas aquilo que temos dentro”?

Num mundo sedento de verdade, ser pessoas autênticas não é um luxo espiritual: é o primeiro ato de caridade que podemos realizar. Especialmente para com quem, como os jovens, têm o direito de ver que é possível viver sem duplicidades; que a integridade não é uma utopia; que a coerência entre interior e exterior é o caminho da verdadeira liberdade.