Entrevista Nueva Vida 2025

ENTREVISTA VIDA NUEVA 2025


No dia 25 de março, o Capítulo Geral 29 dos Salesianos elegeu o maltês P. Fábio Attard como Reitor-Mor. Em entrevista concedida à revista salesiana ‘Vida Nueva’, o XI Sucessor de Dom Bosco descreve os desafios atuais da Congregação.

Que desafios lhe lançou o Capítulo Geral que o elegeu?

Sem dúvida, vejo a identidade como o nosso maior desafio, não apenas como salesianos mas como Igreja. Numa sociedade dividida, na qual parece não haver unidade, discutir a questão da identidade proporciona oportunidades singulares para compreender a realidade e o que somos convocados a ser e a oferecer. Pessoas que têm clareza sobre sua identidade são capazes de manter um diálogo dinâmico com uma realidade que desafia sua espiritualidade. Ao contemplarmos Dom Bosco, nós, Salesianos, afirmamos que ele experimentou a graça da unidade, ou seja, foi um indivíduo altamente humano e altamente sacro, que praticou uma espiritualidade encarnada. Viver dessa forma nos auxilia na leitura e resposta aos desafios que enfrentamos. O Capítulo fez um apelo para que sejamos "apaixonados por Jesus Cristo" e "apaixonados pelos jovens" a fim de caminharmos juntos num mundo em que a percepção da Fé é diferente da de antigamente, mas onde a busca das pessoas por significado e espiritualidade permanece a mesma. Dom Bosco nos ensinou que todos, especialmente os jovens, têm um ponto acessível de bondade, mesmo que às vezes esteja encoberto por experiências negativas.

A mensagem que o Papa Francisco enviou ao Capítulo, além da identidade, apontou para o desafio da interculturalidade. Como isso pode ser vivenciado numa das maiores congregações do mundo?

É preciso harmonizar a identidade com a interculturalidade. Nosso carisma vem do Espírito e isso fala ao ser humano e se traduz em categorias culturais. Da mesma forma, o Evangelho, ao se deparar com as culturas, torna-se uma fonte de luz que ilumina, faz crescer e amadurece o bem que nelas existe. Da mesma forma, nossos próprios elementos, como o Sistema Preventivo e a Caridade pastoral com sua inteligência pedagógica, estão presentes em todo o mundo e em todas as culturas. É nosso dever cultivar esse carisma que não nos pertence, mas que é a manifestação do espírito por meio de Dom Bosco. Esse carisma se faz presente tanto em ambientes cristãos quanto para aqueles que não creem ou são indiferentes. Observei que o carisma salesiano é um carisma que transcende as barreiras culturais. Atualmente, as C omunidades salesianas em diversas regiões do mundo enfrentam o desafio de redescobrir sua identidade carismática, vivenciá-la com alegria e entusiasmo, e ser capaz de compartilhá-la. Entretanto, o multiculturalismo também se faz presente em diversas salas de aula das escolas europeias, nas quais há alunos de 30 a 40 nacionalidades diferentes. Nesses casos, é necessário atuar na identificação das semelhanças e incentivá-los a conviver em harmonia, evitando a formação de guetos. Logo, essa é uma vivência multicultural que também incorpora o carisma salesiano.

Nessa realidade, como é vivenciada a crise vocacional?

A crise vocacional é uma questão importante que também deve ser lida a partir da evolução da própria cultura. A secularização nos mostrou que, numa Europa que era culturalmente cristã, não havia necessariamente uma escolha pessoal de Fé: tínhamos o cristianismo, mas não necessariamente cristãos. Isso deve nos fazer valorizar a Fé (que fundamentalmente é dom de Deus. NdoT) como uma decisão pessoal, o que nos deixou com uma minoria quantitativamente pequena, mas qualitativamente criativa. É essa a minoria criativa à qual Bento XVI se referiu. São pessoas que têm um chamado muito claro, que o assumem com toda a sua personalidade. Em relação às vocações, conforme afirmou há alguns anos o Cardeal André Vingt-Trois, de Paris, a proporção entre vocações e fiéis praticantes permanece inalterada: anteriormente, havia 10 vocações para cada 100 fiéis praticantes; agora, há uma vocação para cada 10. Ademais, o Vaticano II nos fez enxergar a Igreja como uma comunidade de fiéis, na qual cada um possui suas responsabilidades e sente o empenho a que se deve dedicar. Por isso temos um compromisso leigo inédito, formado por indivíduos com um profundo entendimento do carisma e a determinação de cumprir sua missão com total empenho. Isso nos leva a entender que, nos processos pastorais, não devemos oferecer produtos, mas experiências. Além disso, há um aumento no número de batismos de adultos na Europa. Como disse o Papa Francisco, não estamos apenas numa mudança de época mas numa época de mudanças em que as chaves de interpretação que tínhamos ontem não funcionam hoje. E é nesse ponto que devemos continuar a abrir portas e oferecer oportunidades.

Missão de guerra

Desde seus primeiros discursos públicos, o senhor pensou nos salesianos em zonas de guerra. Qual é o testemunho desses irmãos?

O aumento da violência não é apenas um fenômeno sociológico crescente. Agora, como superior, tenho uma responsabilidade muito maior por esses irmãos - que são muitos - , e que vivem em meio a conflitos, guerras, terrorismo ou violência de gangues. Quando falo com eles, dizem: "Não precisamos de nada, apenas pedimos que a congregação continue a nos acompanhar, porque precisamos de afeto, acompanhamento, oração. O de que precisamos é de proximidade humana e espiritual, porque não pensamos em nos afastar". Essas testemunhas no campo pastoral são os mártires modernos. Desde o início, os Salesianos na Ucrânia deixaram evidente que a Congregação está presente para apoiar os jovens, especialmente em tempos de adversidade; e que está presente para fazê-lo com criatividade pastoral, atendendo às novas demandas, como suporte psicológico ou acolhimento para aqueles que perderam suas famílias e não têm onde dormir ou de que se alimentar.

Como o senhor percebe essa responsabilidade?

Sabendo que pouco posso fazer em termos materiais, eu me esforço por entrar no sentido de proximidade, fraternidade, oração contínua, preocupação pessoal. São pequenos sinais, mas são eloquentes, não fazem ruído, embora deixem um forte impacto, porque vêm do fundo do coração e vão até lá. Mantenho contato com esses irmãos e sei que, quando precisam de mim, podem me chamar, porque agora, para essas pessoas, eu não sou apenas Fãbio: sou o Sucessor de Dom Bosco. E há também outro acompanhamento - mais direto - por parte das próprias Inspetorias.

Como o senhor se sente quando percebe que não é apenas o Sucessor do Cardeal Fernández Artime mas de Dom Bosco? Que necessidade pessoal isso desperta?

Ao ser eleito, tive a oportunidade de tirar uma foto perante o altar de Dom Bosco, acompanhado pelos meus dois predecessores: P. Pascual Chávez e Card. Ángel Fernández Artime. Para mim, foi um momento especial estar com aqueles a quem ainda me refiro como "Reitor-Mor" e que agora me chamam da mesma maneira. Assim, não apenas sinto que existe unidade mas também que compartilhamos o mesmo amor. É algo simples, mas sinto que é algo muito significativo. Ainda preciso de tempo para me adaptar à ideia dessa missão que vai além dos aspectos humanos. Farei o que estiver ao meu alcance e peço aos Coirmãos que orem por mim para que Deus atue em mim e através de mim.

Voltando ao momento da eleição, que significado tem o fato de os capitulares terem eleito o novo Superior Geral fora da Assembleia Capitular?

Foi realmente uma surpresa esta eleição a tantos quilômetros de distância. Cheguei a um ponto da minha vida em que não me impressiono facilmente, mas não consigo explicar como me senti quando recebi a ligação do CG29. Na viagem de Roma a Turim, estava a pensar no que Deus estava a me pedir por meio de meus Coirmãos. Sinto-me amado e apoiado, e percebo que os membros do Capítulo tiveram ampla liberdade para escolher e compartilhar as situações das quais a Congregação precisa. É bastante provável que estejamos numa nova fase, para prosseguir aprofundando o discernimento, alinhados com a sinodalidade, e continuar a reflexão na escuta do Espírito: uma escuta e discernimento - o da metodologia utilizada no capítulo em sintonia com o último Sínodo - que deve seguir como paradigma de governo. Há anos contamos com uma plataforma de sinodalidade salesiana, a comunidade educativa pastoral, que congrega os salesianos e todos os envolvidos na missão. Para nós, "Pastoral" refere-se sempre ao "Projeto Educativo Pastoral".

No Capítulo, foi dado um "passo histórico", com a aprovação ‘ad experimentum’ de que os salesianos leigos – identificados constitucionalmente como ‘salesianos coadjutores’ - para atuarem como Diretores. Poderia isso ser um testemunho da sinodalidade?

Dom Bosco, que tinha uma visão muito profunda dessa questão, desejava salesianos externos. Agora retomamos o assunto com o Papa Francisco. Possuímos uma longa tradição que associa a dimensão sacerdotal à governança, e isso resultou numa ampla variedade de opiniões que nos ajudará a continuar refletindo pelos próximos seis anos. O próprio sentido de comunidade também está mudando, e temos comunidades educativo-pastorais, de tal forma que, em alguns contextos, há pessoas de diferentes crenças que estão em sintonia com o projeto de Dom Bosco. Por meio da experiência, leremos, interpretaremos gradualmente e, finalmente, acompanharemos essa possibilidade de que os Coadjutores possam ser Superiores de Comunidade.

O encerramento do C apítulo foi marcado por uma peregrinação do jubileu. Existem razões para acreditar nos jovens de hoje?

Foi oportuno, porque o C apítulo estava previsto para ocorrer em 2026. Nós, Salesianos, somos conhecidos por encontrar soluções em situações de emergência. O documento final é bastante encorajador, e fomos imersos nesse Convite à Esperança, proporcionado pelo Jubileu. Ademais, neste ano, nós, Salesianos, comemoramos o Sesquicentenário do envio da Primeira Expedição Missionária de Dom Bosco, refletindo sobre as muitas fronteiras ainda por atravessar. A Esperança não consiste em aguardar o que já não existe, mas na tensão do "já, mas ainda não", que indica que, embora estejamos enraizados no presente, devemos olhar para o futuro sem nos perdermos: pois encaramos o futuro com a mesma alegria que vivenciamos o presente. Isto faz parte da sabedoria do educador, que consegue ver o adulto de 30 anos no menino de 15. É preciso transmitir isso aos jovens, plantando neles - no presente e terreno fértil que eles são - as sementes da Esperança. Para isso, basta que lhes mostremos - a partir do que já existe - um vislumbre do futuro para que sintam que possuem um enorme potencial. E isto é praticar a Caridade Pastoral com inteligência e pedagogia.